quarta-feira, julho 27, 2011

 

Opinião

Censos 2011

Da leitura dos resultados preliminares dos censos de 2011, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística – INE chamou-me a atenção o facto de 40% da população portuguesa residir nas zonas metropolitanas de Porto e Lisboa, 4% do território nacional. Retive ainda na memória que o Concelho de Mafra ganha mais cerca de 22 000 habitantes e Alcoutim é o concelho português mais desertificado na última década, perde 23% de residentes.
A população do Distrito de Vila Real é agora de 207 184. O Concelho de Montalegre tem um decréscimo populacional de 2 168, cerca de 17% e é o quarto Concelho que mais residentes perdeu no Distrito. Apenas Valpaços, Alijó e Chaves superam Montalegre (em percentagem Montalegre foi o 1º). O nosso Concelho, a nível nacional, fica a cinco pontos percentuais de Alcoutim. A média dos três Concelhos que mais perderam situa-se nos 20%. Não temos muito de quem nos possamos rir. Devemos, isso sim, reflectir e tomar medidas que o assunto é muito sério e necessita de tratamento urgente.
O Concelho de Boticas, aqui tão perto, não chegou ao milhar de perdas.
Pelo Jornal “Povo de Barroso”, última edição, constato que os resultados dos censos de 2011 foram abordados na última Assembleia Municipal. Não sei o tempo de análise que o assunto mereceu por parte dos presentes. Sou de opinião que esta matéria era merecedora de uma reunião extraordinária do Órgão Deliberativo da Câmara. A preocupação traduz-se em muitos depoimentos a que acedi. Um Presidente de Câmara, por exemplo, afirmou, cito: - “O declínio populacional atingiu um ponto em que algo tem que ser feito, porque o despovoamento do país é uma realidade avassaladora, à beira de atingir um ponto de não retorno. Os resultados são um drama para o interior, mas há soluções, não podemos desanimar e os poderes públicos não podem ignorar mais esta situação”. De notar que o Concelho a que este autarca preside perdeu apenas 7% de residentes. Comparado com o de Montalegre é uma insignificância.
Concelhos que adoptaram medidas contra a desertificação estão a conseguir bons resultados. O Concelho de Vila de Rei superou inclusivamente a média nacional ao atingir o valor de recuperação de 2,83%. Iniciou com a vinda de famílias do Brasil, apoio à natalidade, isenção de IMT e IMI e redução de 5% no IRS. Hoje aposta em jovens alunos de São Tomé e Príncipe e de Cabo Verde.
O êxodo da população do Concelho de Montalegre é real e muito elevado, não se pode ignorar este fenómeno. As pessoas só se fixam onde existam escolas, postos de saúde dignos desse nome, vias de comunicação em bom estado de conservação, captação do sinal dos quatro canais da televisão nacional, acesso à internet, brigada de cantoneiros, saneamento básico, oferta de emprego, praias fluviais e centros culturais. A redução de impostos também é possível. A lei permite ao Poder Local abdicar de parte do valor a favor dos munícipes. A maior parte das aldeias do Concelho não dispõem destes serviços.
A Freguesia de Montalegre, segundo os censos de 2011, ganhou mais um habitante. É inegável que é uma vitória da autarquia pela qualidade de vida que a Sede do Concelho atingiu resultante do muito investimento feito. Há que realçar este ponto, aproveitar a experiência e passar a canalizar verbas para as outras freguesias, sempre tão esquecidas. Esquecimento injusto, umas mais que outras, e inaceitável. As rendas da indústria eléctrica, impostos e derramas são a viga mestra da receita do Município. Nas aldeias estão as barragens, as torres eólicas e grande parte das propriedades urbanas e rústicas. Graças a estas receitas as infra-estruturas na sede do Concelho já atingiram um patamar muito elevado e em alguns casos ultrapassam o razoável, face à carência em outros locais do Concelho. A Vila modernizou-se, o comércio local desenvolveu-se com eventos grandiosos subsidiados ou pagos pela autarquia. Até se esbanjaram alguns milhares de euros. Exemplos não faltam. Dizia-me um aldeão: “na Vila já se tira e volta a pôr calceta no mesmo sítio”. A imprensa local divulgou o lamento do responsável da autarquia por gastar milhares de euros nas piscinas municipais. Era moda na altura! Por isso se construíram.
A manter-se a política de desinvestimento nas aldeias, não resta outra alternativa a muitos Barrosões senão partir e caminhar no sentido do correr da água para o litoral, à procura de uma vida digna, que o município não quis ou não soube dar-lhes e que os preteriu, apesar de excelentes contribuintes para os cofres da autarquia.
Opinião de Fernando Guimarães

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