quarta-feira, março 19, 2008

 

Opinião

Cancioneiro Barrosão alvo de plágios snobes

Em conversa recente com o investigador Barrosão José Dias Baptista, chamou ele a minha atenção para plágios, nomeadamente àquele que António Lobo Antunes foi buscar a uma quadra popular do cancioneiro, genuinamente de Barroso, para mais um dos romances que vem transformando esse autor numa vedeta da escrita light . A esse romance chamou «Eu hei-de amar uma pedra», título que publicou em 2004 e que já tem barbas, a crer na explicação que o Inspector José Dias Baptista, me deu ao garantir a pureza original desta quadra:
«Eu hei-de amar uma pedra,
Com todo o meu coração:
-a pedra nunca se queixa,
Tu queixas-te sem razão».
Zé Baptista é um Autor, nascido na Vila da Ponte (1941), foi professor do ensino Primário, licenciou-se em História e, a meio da carreira docente, transitou para a Inspecção do ensino secundário. Desde muito novo publica prosa e poesia, com preferência pela temática que se prende com a Região em que nasceu, em que vive e da qual nunca quis sair. Tem dezenas de trabalhos que muito contribuem para que a cultura popular de Barroso não desapareça na voragem das novas tecnologias e da crosta de ignorância com que gerações sucessivas se debatem, sem que delas se apercebam. A filosofia das chamadas «Novas oportunidades», o proverbial facilitismo que grassa na sociedade, tudo embrulhado no Processo de Bolonha que reduz a cinza, anos e anos de estudo rigoroso, fazem que com a cultura genuína de regiões ímpares como a nossa, se evapore nas sistemáticas crises geracionais como algumas que temos vindo a atravessar.
É no meio desta barafunda que a exigência académica tem dado lugar a profundas transformações, com nítido prejuízo para o processo endocultural que envolve a globalização.
Quase me perdi no meu raciocínio a propósito dos plágios que certos autores snobes bebem em fontes alheias e que citam como sendo suas. E são esses os que vivem convencidos de que são os melhores do mundo. A. L. Antunes gastou oito longas páginas da revista «tabu», nº 73, referente a 2 de Fevereiro, último. Aí afirma: «ganho a vida a escrever livros. Quando digo que sou o melhor na língua portuguesa estou a repetir uma evidência. Posso ferir quem? Porque?» E, como tirada final, veja-se onde chega o despudor daquele que se «assume como o melhor escritor português»: «Normalmente vêm três prémios por ano. Qualquer dia vem esse também (o Nobel) de mistura com os outros». O auto convencimento pode deslumbrar a mais pura ilusão. Mas o bom senso tem limites. E este senhor que cinco anos depois de eu próprio regressar de Angola, como militar e ter publicado «É preciso Amar as Pedras» (1970) chegou ele a Angola, também como militar. Tenha ou não lido aquele meu livro, trinta anos depois vem à praça pública com mais um dos seus romances «Hei-de amar uma pedra». As linhas de força são as mesmas. O tempo e o modo podem divergir. Mas a evidência é, aqui muito mais clara do que ser ele próprio a reclamar-se o «melhor escritor em Língua portuguesa».
José Dias Baptista, na tarde de 1 de Março em curso, encontrou-me no Sol e Chuva e disse-me: «afinal, o Lobo Antunes, plagiou, mais do que a ti, o cancioneiro genuinamente Barrosão. Leu-me a quadra e a dúvida foi esclarecida. O primeiro verso daquela quadra que desde há séculos, foi cantada e repercutida por pastores e festeiros de Barroso, foi usada nos primeiros anos do século XXI para título de mais um romance de quem sonha com o Prémio Nobel da Literatura.
Sempre os barrosões serviram de burros de carga para certos urbanos subirem na vida. Uns na política, outros nas profissões liberais, outros ainda nas artes e nas letras. O exemplo que fica serve de ilustração. Daí a importância da recolha deste tipo de cultura popular, cuja autoria já não é fácil identificar. Mas que, uma vez recolhida e registada pode servir de moderação a certo pedantismo que anda por aí a dar de comer a muita gente. Já aqui trouxe um fresco exemplo. Em 1974 eu próprio escrevi a letra do Hino do Desportivo de Chaves. Carlos Emídio Pereira escreveu a música. Bio cantou-a em gravação vulgar. Desde há uns anos a Espacial, adulterou letra e a música, Ágata emprestou-lhe a magnífica voz. E os autores, pura e simplesmente, foram ignorados e, vilipendiados, sendo fácil identificá-los. Fica este apontamento para clarificar certos processos menos claros por parte de pretensos ídolos nacionais. Era aqui que a ASAE deveria intervir, porque andam alguns a fazer figura com aquilo que é alheio.
Por Barroso da Fonte

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