terça-feira, fevereiro 05, 2008

 

Opinião

Lucindo de Travassos - um artista sem fronteiras

Ficou conhecido pela alcunha de «Lucindo de Travassos», mas chamou-se pelo baptismo e registo civil: Domingos Dias. Veio ao mundo na aldeia de Travassos, freguesia da Chã, em 28 de Março de 1901. Faleceu em Chaves, em 19 de Agosto de 1981, sendo sepultado no cemitério novo da urbe Flaviense, na estrada do Seara.
Foram seus pais: Manuel Fernandes (conhecido pelo Balbino) e Lucinda Dias, ambos de Travassos. O pai viria a casar com Maria Curral, de Gralhós, onde sempre viveu e faleceu. Após o serviço militar, em Lisboa, em 1922, o «Lucindo» emigrou, clandestinamente, para os Estados Unidos da América, de barco e por Cuba, de onde regressou em 1928. Fixou-se em Lisboa, trabalhando na fábrica de cerveja Sagres, durante 10 anos. Desde muito novo teve gosto pela música, começando pelo realejo, passando pela concertina e acabando no acordeão. Foi a música que o celebrizou. Já em Lisboa, ao fim do trabalho, pegava na concertina e passava os fins de semana a animar certos ambientes sociais. Quando, aí por 1938, regressou a Travassos, foi a concertina que o popularizou, de terra em terra, de festa em festa, tornando-se no mais famoso artista da região das Terras de Barroso e do Alto Tâmega.
Era um regalo ouvi-lo. Velhos e novos fixavam-no como se fosse uma espécie de super-homem, extraindo das teclas desse instrumento, melodias que ainda hoje, quase deixam saudade a quem, como o autor desta nota, assistia ao ambiente que se gerava à sua volta, às vezes de chapéu ao lado, com uma pena de pavão na orelha, brilhantes anéis nos dedos e fitas, ondulantes na concertina, com uma ponta de cigarro ao canto dos lábios. Criou tal fama como músico e como apaixonado por mulheres que deu origem à quadra popular :

O Lucindo de Travassos,
Enganou uma menina
E traz o retrato dela
Gravado na concertina.
De facto era uma boa figura de homem e de artista, sempre sorridente, sempre bem vestido, sempre cheio de anéis e de braceletes, o que permitia dar nas vistas das moçoilas mais catitas. Teve filhos de quatro mulheres oriundas da região: dois casamentos e duas outras ligações.
O primeiro casamento, (era ainda jovem) foi com Ana Custódio, sua conterrânea, da qual teve uma filha que recebeu o nome de Benta. Depois de correr mundo pela América, viveu 10 anos, em Lisboa com Teresa da Silva, natural das Lavradas, concelho de Boticas. Dessa ligação nasceram; o filho Armando e as filhas: Fernanda e Celestina. Seguiu-se uma terceira ligação, desta vez com Bárbara, de Agrelos, Boticas, nascendo mais uma filha, de nome Maria. Finalmente, em 1952, o casamento perfeito com Teresa Mendes Rosa, natural de Peirezes, do qual resultaram mais seis filhos, a saber: Domingos, Fernando, Alice, Alcides (falecido em 2000), Orlando e Carlos.
Em 1956, a convite da filha mais velha (Benta Pereira), residente em Ludlow, Massachusetts, voltou com a família para os Estados Unidos. Dois anos depois comprou uma pequena quinta em Curalha, onde viveu os últimos vinte anos, sempre que vinha a Portugal. Em 1966 levou a Família toda para Bridgeport e aí esteve até 1981, altura em que regressou definitivamente para a sua residência de Chaves. Nesse mesmo ano faleceu, com 80 anos de vida , cheia de altos e baixos, de alegrias e tristezas, mas sempre a alegrar o mundo em que se integrava.
A Mulher, D. Teresa Mendes Rosa, ainda vive em Chaves e os filhos radicaram-se nos USA, uns com melhor sorte do que outros, merecendo destaque pela positiva, o Domingos Mendes Rosa Dias, empresário de sucesso e jornalista que regularmente nos vai mantendo ao corrente do que por lá se passa. Outro irmão que de certa forma herdou as aptidões do pai é o Carlos, o mais novo, responsável de um agrupamento artístico de grande nível profissional.
Quem viveu na região do Alto Tâmega nas décadas de cinquenta/sessenta guarda, por certo, as mais gratas recordações desta figura que não teria mais que a instrução primária, mas que merece figurar entre os mais conhecidos, por bons motivos. Nas terras de Barroso, os domingos e os dias festivos, casamentos, inspecções militares, eram os únicos intervalos de quem vivia exclusivamente da agricultura. A rapaziada de cada aldeia, de longe a longe, contratava o Tocador de Travassos para animar a malta. Não se falava noutra coisa. E as gentes das redondezas, vinham dançar, bailaricar, divertir-se porque eram espectáculos como não se via em lado algum. Não havia rádios, nem televisões, nem sequer cinema. Aqui e ali havia quem tocasse realejo, ou numa concertina de duas carreiras, como eram conhecidas. Mas o Lucindo fazia-se acompanhar, além do moderno acordeão, do bombo, da pandeireta e de ferrinhos. A sua figura de artista de renome impunha admiração e respeito e as Terras de Barroso, orgulhavam-se de tê-lo como um dos mais ilustres do seu tempo. Fica aqui uma invocação ao parente, ao Amigo, mas sobretudo, ao mais conhecido acordeonista que as Gentes de Barroso conheceram. A sua vida dava uma bonita e merecida biografia. Dele e da família continuaremos a dar notícias em próximo apontamento.
Opinião de Barroso da Fonte

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