quinta-feira, janeiro 24, 2008

 

Opinião

Homo Barrosanus- "Os irmãos silvestre" (1ª parte)

Os dois irmãos Silvestre eram os mais remendados e encardidos da aldeia. A apresentação descuidada e enxovalhada deles era muito semelhante à apresentação desmazelada de seu gado o qual, por falta de covil salubre e por desleixo dos donos que sempre careciam de palha e tojos no combarro, metia dó à vizinhança. Por isso, quando donos e gado transpunham o portal do pátio revestido a folhas de zinco e desciam a rua da Costa para irem prò lameiro do Rabião, ambos se apresentavam tão calhatrosos, que os vizinhos tinham dificuldade em distinguir se o mais indecoroso era o gado que ostentava nos quartos grandes calhatras, se o dono que exibia nas calças os remendos e os sarranhos que fulgiam ao longe.
A cabeleira deles, negra e eriçada, era como a beira de colmo que o bravo calor do Verão queimara e que a ventania no Inverno, pondo a descoberto as negras traves de madeira, todos os anos descolmava. O semblante deles era como a tosca casa de granito em que habitavam e que, depois da morte dos pais, que Deus tem, há várias décadas, nunca sofrera obras de remodelação. Os olhos eram como os estreitos janelos que ladeavam a porta de entrada, ingresso de gado e dono, e onde nunca existira vidraça; e por onde o fumo, sem outra saída, era impelido a sair nos dias mais fumarentos.
A laje natural, nua e fria, que servia de pavimento a parte da cozinha, prolongava-se para o exterior, para a eira, virada a Sul. Nos dias soalheiros de Inverno, quando ainda não era hora de botar o gado, era ali que se encontravam ou a comer a monótona refeição, quase sempre um pedaço de pão com febra e um copo de vinho, ou a executar trabalhos domésticos variegados ou, ainda, estendidos ao sol. No pino do Inverno, estiravam uma capa sobre a laje exterior junto à porta de entrada e, resguardados da curiosidade avassaladora da vizinhança, estatelavam-se ao sol a apanhar banhos tonificantes de energia solar que os reanimavam e era forma que compensava os franzinos corpos da fraca refeição.
Também era aí que tinham lugar as primeiras brigas do dia. Quando discutiam, pareciam dois diabos da Tasmânia. "Vai-te diabo!", dizia um; "Rai’s te partam!", replicava o outro. E quando as desavenças subiam de tom e se encapelavam como a beira que o vendaval eriçara, um deles tirava da cabeça a carapuça de burel, a modos de barrete frígio, atirava-o ao chão, sobre a laje, que o temporal da véspera lavara, e, colérico, pisava-o com os pés.
Quando as contendas tinham lugar na cozinha sombria, ao lado da corte do gado, os animais é que se distraíam com as birras e brigas deles. Os olhos brilhantes e acusadores de vacas e ovelhas, companheiros de jornada, que o frechal esburacado que separava a morada de gado e dono deixava ver, sempre a vará-los, não os deixavam sossegados. E quando no presel o feno escasseava, eram as birras deles que os entretinham e lhes enganavam a fome.
Andavam liados e davam-se mal, mas logo reatavam as amizades, como as crianças, e prosseguiam as tarefas comuns que a birra de ambos suspendera, pois não podiam viver um sem o outro. A lavrar, um pegava na rabiça do arado, o outro, agarrado ao temoeiro, chamava a junta. Um cargava feno e o outro botava para cima. A guiar a junta, um chamava e o outro, envergando uma vara comprida, tocava. Um ia com as vacas, o outro fazia-lhes as camas e desougava-as. Na terra de messe, um segava e o outro, atrás, atava. Um cavava e o outro apanhava as batatas. A empinar a pipa que deixara de gotejar, um puxava e o outro calçava. A atar o carro, um puxava e o outro imprava
(continua)...
Por Manuel Ramos

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