quarta-feira, julho 25, 2007

 

Opinião

A Minha Terra - 6

Na minha terra, a gente já não é o que era. Viva a irreverência! – diria o Cavaco. Seja! – digo eu.
Considero-me um homem livre, não estando ao serviço de nenhum partido. Não confirmo, não aprovo nem divulgo o que proclamam chefes ou líderes políticos, sobretudo se a minha consciência estiver em desacordo com as suas decisões.
Pertencer a um grupo social organizado, qualquer que ele seja, exige muita disciplina, que não tenho nem quero ter, e muita luta interna, de que já estou farto. Reconheço que a minha integridade se deve essencialmente ao meu desejo de uma crescente comodidade e à estabilidade profissional conquistada. Ora, um compromisso obrigar-me-ia a uma atitude de colaboração para a qual não me sinto, hoje, nada disposto.
Em tempos, mais novo e ainda pouco adulto, calcorreava caminhos que me levassem a manifestações, comícios, certames e lançamentos de livros, colava cartazes, não por dinheiro, mas por convicção, para recolha e propagação de ideias que me pareciam melhores e, por isso, ainda acredito nelas. Hoje, em face do que vejo, em face da crise de identidade dos princípios que devem nortear as organizações, movimentos e associações, não sei se não lutei só por um ideal.
Outros colegas de luta, mais velhos ou mais novos, medraram muito. Ocupam cargos importantes na Administração ou noutros sectores da sociedade "trabalhadora", em rádios, jornais ou nas chefias de empresas. Dão conferências, participam em mesas redondas e em entrevistas radiofónicas e televisivas, discorrem em fóruns de opinião, recebem entidades, cumprimentam, com dois dedos no ar, por detrás dos vidros foscos de veículos topo de gama, em que seguem, complacentes e convencidos da importância do gesto. Por momentos, esquecem o protocolo e, quase sem querer, levantam o punho fechado como se fosse para zurzir alguém. Muitos deles escondem a sua mediocridade intelectual, a duvidosa qualidade profissional, e, sobretudo, a sua limitada integridade moral, encapuzados na impositiva e suposta "honestidade" das decisões superiores. Tiveram a habilidade de, a seu tempo, "terem dado uma palavrinha" a alguma personagem muito poderosa, conhecida do padrinho.
Chafurdaram na rua estreita, suja e ruidosa da minha terra, onde, igualmente, todos começámos, mas fugiram a tempo. Agora, vivem na periferia da vila ou da cidade, em vivendas de distinto recorte arquitectónico, projectadas por cérebros arquitectados nalguma "faculdade independente", onde celebram encontros sectários, saraus, conciliábulos, onde se provam vinhos de marca e onde, "sob o céu cinzento e sob o astro mudo", cozinham grandes nomeações, sinecuras e proveitos. Conseguem levar uma vida saudável e regrada, organizam-se em clubes, em confrarias ou em fundações. Formam um círculo meticulosamente fechado, onde se geram, de uns para outros, os convites para conferenciar, para serem homenageados, condecorados, medalhados ou indigitados para um prémio disto ou daquilo, em que o júri é um deles, obviamente, e o outro é, naturalmente, o premiado. Os que não convencem pela verve melíflua, extraída de qualquer prontuário de "Novas Oportunidades", insinuam, descaradamente, o preço da indiferença que afectam ou da cumplicidade do silêncio. Expeditos em prebendas, levantam-se e caem com os cabecilhas da política, se, entretanto, cautelosamente, não mudarem de rota.
Na minha terra, nos meios ditos progressistas, tem-se difundido esta hipócrita e crescente necessidade de acautelar a aparência, a conveniência, o "ar cordato", que consiste em não sair, desbragadamente, à noite, a não ser quando há festa no Palácio, no "Período dos Emigrantes", para que estes possam ver os progressos e a sociabilidade do Poder e a vida que, supostamente, os seus velhotes gozam todo o ano: marcados pelo árduo trabalho de um ano de degredo, os filhos da minha terra que, nesse mês, regressam à origem, anestesiados pelo deslumbrante fogo de artifício e a sumptuosa mesa, composta para a circunstância, crêem na sacrossanta bem-aventurança dos outros onze meses de Inferno. Todavia, geralmente, os progressistas só saem de casa, albardados de gravata, para apreciarem espectáculos de dança de salão, de grupos corais ou de charangas, para participarem em mesas redondas, grandes como rotundas, assistirem a concertos e colóquios, nas filas reservadas para os "solípedes" (nome por que são vulgarmente conhecidos, na Minha Terra, os plutocratas, por usarem sapatos de sola), a fim de melhor aplaudirem os que por eles próprios foram convidados.
Nesta minha terra, não me considero pertencente a esta espécie de mutante. Conformo-me com a classe da dignidade de homem barrosão, não mais nem menos do que a de qualquer pelintra, ilota ou meteco, a que aqueles senhores costumam chamar, uniformemente, "minhotos", e estou ciente de que a liberdade que me basta é saber que não tenho que comprar nem o silêncio dos outros nem as lições de comportamentos calculados, afectados ou… infectados, em salões de estudo da socialização, nem o ar que respiro pelo preço da minha "reverência".
Por MBM

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